segunda-feira, setembro 26, 2011

Matéria de Barro

No dia em que me conheci, tinha acabado de fugir de um hospital. Sentada num passeio público, cheguei pra mim e me disse “hoje é o dia”.
Levantei-me abruptamente e fui em direção ao hospital. Rasguei meu exame médico e me disse que viveria mais, não importando o que me dissessem.
Tendo como lema “viver intensamente, temer a morte, jamais”, cantei, dancei, tomei um porre.
No dia seguinte estava em casa, de papo para o ar, com a cuca fresca e um vestido leve. Mas a minha tranquilidade durou pouco. Logo, chegaram meus filhos ensandecidos, alegando que eu precisava voltar para o hospital.
Eu voltei? Imagina! Não era porque sentira um leve mal estar e o médico alegou que era grave, que deveria obedecer. Se me restava poucos dias de vida o que devia fazer era aproveitar o máximo e não me prender num hospital. 10, 15 dias de vida? Não importava. O imprescindível era viver.
No meio dos berros e investidas dos meus filhos para que eu voltasse, o telefone tocou. Era um médico pedindo que eu fosse para o hospital.
Pensei que era mais um truque dos garotos. Conversei comigo mesma e decidi ir, pois uma mulher como eu não tem medo das coisas.
Fui escoltada pelos meus filhos, olhei para o médico e o senti constrangido e um pouco nervoso. Ora, será que os mais recentes exames constataram que vou morrer daqui a algumas horas? Seria o caso de já começar os preparativos do velório? Não, o que o doutor falou soou como canto de pássaros aos meus ouvidos.
Segundo ele, houve um raríssimo erro no primeiro exame, o qual havia constatado levianamente uma doença grave.
Cara, gritei um “eu já sabia” tão alto, que quase fui expulsa do hospital.
Hoje, sigo minha vida numa boa, curtindo a cada minuto com extrema valorização. Descobri que me amo muito para perder tempo preocupada, principalmente com coisas pequenas, e que a vida é curta demais para vê-la simplesmente passar.

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