sexta-feira, julho 22, 2011

O Jogo


Apita o árbitro e o jogo começa. O Club de Regatas Vasco da Gama joga contra seu maior adversário, o Flamengo.
Letícia, vascaína de corpo e alma, corre para sala, tranca a porta para que ninguém entre e assim possa expressar todo o sentimento de torcedora. Falar mal do juiz e pular, faz parte dos seus costumes.
A porta fechada não é impedimento para que seus tios entrem e sentem ao seu lado. Os dois não demonstram muito interesse no jogo. Eles conversam entre si e falam para a menina se acalmar, pois um jogo não vale tanto assim.
“Como não? Essa é a final da Taça Rio!” a menina fala como se fosse um absurdo alguém não saber algo tão importante.
A cada lance, Letícia pula do sofá, grita freneticamente e quando o clima esquenta e se encontra desesperada, vai para o quarto, derramar algumas lágrimas, coisas de intervalo.
Passa o segundo tempo do jogo e o placar continua zero a zero. Ao ver a garota nervosa, um dos tios fala: “você é baiana, deveria torcer para o Bahia!” e começa a falar os grandes feitos do tricolor. O outro afirma que não gosta de futebol e que só está ali porque acha que o jogo é importante.
O jogo vai para os pênaltis. Ela se concentra, mal pisca os olhos e respira, como se ao fazer essas coisas pudesse impedir os jogadores do seu time de se concentrarem. Vai o jogador do seu time, depois um adversário e assim por diante.
O momento é dramático, as mãos da garota estão frias, seus olhos arregalados já não lembram de arder, suas pernas mal conseguem sustentá-la firme ao chão. Um tio sai da sala, alegando desinteresse pelo jogo. O tio tricolor volta a falar que ela deveria torcer para o Bahia. Mas ela já não escuta mais nada.
Após três rodadas de pênalti, o time adversário sai vencedor. Letícia desliga a tevê completamente arrasada. Seu tio, como se já não bastasse a dor e sofrimento da garota, fala: “Ta vendo ai? Isso é porque você não é torcedora do Bahia!”
O outro tio retoma à sala vestido com a camisa rubro-negra, comemorando o feito do seu querido Flamengo. Letícia olha transtornada e corre para contar ao seu irmão.
“O nosso time não venceu por causa do nosso tio. Eu deveria ter trancado melhor a porta.”.